Copa de 1982

Copa de 1982
Lembranças da Copa do Mundo de 1982: veja o artigo que escrevi sobre o melhor mundial de todos os tempos

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Lembranças da Copa de 1982: 'A melhor edição de Copas do Mundo da História do Futebol'

Botões para Sempre revive a Copa do Mundo de 1982 e traz a antiga e querida Itália, recém-adquirida, feita pela saudosa 'Indústria de Brinquedos e Jogos Brianezi', com fabricação beirando aquele histórico certame, época em que a 'Squadra Azzurra' carimbou seu tricampeonato mundial
 A 'Azzurra' feita pela Brianezi no começo dos anos 80, modelo 'duas faixas', produzido perto do Mundial de 1982. O escudo foi usado durante a Copa de 1978 e em partidas oficiais pelas Eliminatórias da Copa da Espanha. Nenhum botão rachado ou quebrado. Veio o goleiro original (Zoff), uma nova palheta colorida, com bolinha azul também.
A Itália, terra de meus saudosos avôs/avós e bisavôs/bisavós, no modelo mais adorado pelos colecionadores da Brianezi

World Cup 1982 - Itália, tricampeã mundial de futebol

Artigo escrito por Ricardo Bucci - Jornalista MTB 28.445. Idealizador e editor de Botões para Sempre

Corria o mês de junho. O ano era 1982. Frio em São Paulo. A cidade já era grande, mas não tão violenta e desumana como hoje. Vivia a minha infância. Computava, naqueles idos, apenas sete anos de idade. Um período mágico e romântico. Nas casas de família ainda não encontrávamos computadores e celulares. As maiores lembranças que tenho diziam, sobretudo, às partidas inesquecíveis de futebol com os amiguinhos de colégio, jogos de botão, o Opala branco de meu pai (de 1979), os meus carrinhos matchbox e muito playmobil.
Opala de 1979-1980, de meu querido pai. Nas vésperas do Mundial de 1982, já vivia vestido em uniforme da extinta CBD, esperando a bola rolar nos gramados espanhóis

Mas o que todas as Nações do Mundo aguardavam naqueles idos? A 'Cerimônia de Abertura' da Copa do Mundo que aconteceu, mais precisamente, no dia 13 de junho. Em 1964, na Cidade de Tóquio, ficou decidido que a Copa do Mundo de 1982 seria na Espanha. Isso dava oito anos para a sua preparação. Sua partida inaugural foi entre a poderosa Argentina (campeã do mundial de 1978) contra a emergente Bélgica (vice-campeã da Eurocopa de 1980). Mais de 95 mil pessoas presenciaram ao vivo a partida em Barcelona, no estádio Camp Nou, quando os 'diabos vermelhos' venceram a peleja com um gol solitário de Vandenbergh.
A cerimônia que antecedeu Argentina e Bélgica foi brilhante, colorida e de chamamento à confraternização. O ambiente era de paz.
Maradona, da Argentina, fortemente marcado por uma muralha belga.

Tenho muitas lembranças daquele mundial. Começo pelo álbum de figurinhas dos chicletes Ping Pong, grande sucesso entre as crianças. Um dos meus maiores sonhos era completar aquele histórico álbum, que hoje virou peça de valor e relíquia entre os colecionadores. Quem também não se lembra do "Pacheco, Camisa 12"? Era um torcedor fanático da Seleção Brasileira. A diretoria de marketing da Gillette convidou o 'descontraído' Natan Pacanowski para encarnar o personagem nas ruas e comandar 'in loco' a torcida brasileira durante a Copa. Natan, o "Pacheco", torcedor símbolo daquele Mundial, trabalhou muitos anos na Gillette do Brasil, nas funções de escriturário, assistente e supervisor da linha Papermate e isqueiros Cricket. Um ano antes da Copa, a Gillette desenvolveu uma campanha institucional chamada "Pacheco, Camisa 12", nos principais meios de comunicação. Foi um sucesso. Até meu bonequinho playmobil, de cor verde, foi apelidado de "Pachequinho" e decorado com um adesivo amarelo de número 12, juntamente com o escudo da seleção CBF. Recordo também do personagem do Jô Soares, o "Zé da Galera", no programa 'Viva o Gordo', com o seguinte bordão: "Bota ponta, Telê"!
O mascote da Copa da Espanha: Naranjito
Álbum de figurinhas da Copa de 1982: Ping Pong, grande sucesso entre as crianças
'Pacheco, Camisa 12', o bonequinho de tanto sucesso. Abaixo, Natan com o lateral Júnior
Mas a minha maior paixão era, de fato, o futebol de botão. Cheguei a fazer uma Copa do Mundo paralelamente assistindo o torneio na TV, com apenas botões gullivers antigos, dos anos 70, com escudos das 24 seleções que participaram do certame, recortados das camisas dos times do álbum Ping Pong, que possuía em duplicata. A Escócia, de Souness e Dalglish, tinha sido campeã de meu Mundial. Lembro-me que o goleiro Pantelic, da extinta Iugoslávia, brilhava na minha mesa da fábrica Coluna - que era uma espécie de "Estrelão", um pouco mais sofisticado.
 Arte de Moisés Correia, by 'Botões & Esquadrões'

Partidas épicas
A grande surpresa na América do Sul foi a desclassificação do Uruguai pelo Peru. Na Concacaf a ausência do México também foi surpresa. Na Europa, a queda da Holanda, presente às finais de 1974 e 1978, foi recebida como uma queda dos velhos ídolos daquele país. Suécia, Portugal, Romênia, Bulgária, Suíça e Alemanha Oriental foram outros que não conseguiram visar o passaporte.
A Copa ia se aproximando. Antes de embarcar para a Espanha com a seleção, o lateral Júnior gravou e lançou um compacto com a música "Povo Feliz", mais conhecida como "Voa Canarinho", que foi a música-tema da equipe. A canção fez tanto sucesso no Brasil, que o disco vendeu mais de 200 mil cópias durante a realização da Copa.
Júnior e o seu compacto: 'Voa Canarinho'

A brilhante seleção 'canarinho' tinha 22 convocados. Mas havia um 23º jogador sempre presente. Ele não podia disputar a Copa do Mundo, mas esteve em todos os treinos. Privilegiado, o cantor e compositor cearense, Raimundo Fagner, foi uma espécie de torcedor de luxo. Graças à amizade estreita com dois dos líderes daquele time, Zico e Sócrates. "Eu era bem conhecido na Espanha e estava lançando um disco (em espanhol, diga-se). Então fiquei com a seleção no hotel, em Sevilha. Eu estava totalmente integrado, ajudava a descontrair os jogadores", relembra o cantor. Nas vésperas da Copa, Fagner lançou o compacto "Batuquê de Praia", um dueto com o craque Zico.
Fagner e seu compadre Zico no compacto lançado durante as vésperas da Copa de 1982, mais especificamente no carnaval daquele ano

Todas as partidas foram inesquecíveis. Muitas estão na minha memória até hoje. No jogo entre Iugoslávia 0 x 0 Irlanda do Norte, o atacante norte-irlandês Norman Whiteside se tornou o jogador mais jovem a disputar um jogo de Copa do Mundo aos 17 anos. Superou um recorde que antes era do brasileiro Pelé. Na partida entre França e Kuwait, um sheik kuwaitiano, integrante da comissão técnica, invadiu o campo, de forma bizarra, para protestar contra um gol da França e o árbitro anulou o gol! Quem estava no comando técnico do Kuwait? O brasileiro Carlos Alberto Parreira. Em Vigo, a Itália dava um vexame após outro. Foram três péssimos jogos na primeira fase: empate com Polônia, Peru e Camarões. A "Azzurra" só se classificou por ter feito um gol a mais que os africanos. A maior goleada de todas as Copas aconteceu na Espanha: Hungria 10 x 1 El Salvador. O atacante húngaro Kiss se tornou o primeiro reserva a marcar três gols em uma partida de Copa. Já o gol de honra de El Salvador foi feito por Ramírez, que virou ídolo. Na época o país vivia uma guerra civil. Outro fato pitoresco aconteceu no jogo Alemanha e Áustria. Vimos uma partida de 'compadres', onde a vitória alemã classificaria ambas as equipes para a segunda fase. E foi justamente o que aconteceu.
A sempre temida Alemanha
A França de 1982, com Platini e Tigana: futebol extremamente técnico

A Copa de 1982 ficou marcada, na minha concepção, por reunir um verdadeiro celeiro de craques. O nível técnico elevado das partidas foi fundamental sem a presença deles: Platini e Tigana, da França, Boniek e Lato, da Polônia, Robson, Shilton e Kevin Keegan, mesmo machucado, da Inglaterra (que saiu invicta), Karl-Heinz Rummenigge e Paul Breitner, da ex- Alemanha Ocidental, Jean-Marie Pfaff, goleiraço belga, Ceulemans e Gerets, da Bélgica, Dasayev e Blokhin, da ex-URSS, Falcão, do Brasil, ganhador da 'Bola de Prata', Maradona, Passarella e Kempes, da Argentina, Milla, do Camarões, Madjer, da Argélia, Barbadillo, do Peru, que jogava no querido Avellino-ITA, Prohaska, da Áustria, o goleiraço Jennings, da Irlanda do Norte, Surjak e Petrovic, da ex-Iugoslávia, Panenka, da ex-Tchecoslováquia, autor do gol do final da Euro de 1976, vencido pelo país do Leste Europeu, Zoff e Paolo Rossi (eleito o melhor da Copa), muitos outros, sem contar com os meus maiores ídolos do futebol: Zico e o Dr. Sócrates.
O mestre Telê Santana ladeado dos meus maiores ídolos do futebol que vi jogar até hoje: Zico e o Dr. Sócrates.
Autógrafo do Sócrates que ele me concedeu em 1981, no extinto Hotel Planalto, em São Paulo. Era criança na época e me lembro de todo seu carinho. Muito obrigado, Dr!

Na estreia de nossa seleção, vimos um jogo altamente técnico. Vitória suada do Brasil (2 a 1) frente aos russos e com uma ajuda amiga do árbitro. Brasil e Itália se enfrentavam pelo segundo jogo da segunda fase. Como a Argentina tinha perdido por 2 a 1 para a Itália, e por 3 a 1 para o Brasil, a seleção 'canarinho', favorita ao título, tinha a vantagem do empate para ficar em primeiro no grupo. Os brasileiros acreditavam em uma vitória fácil, pois a Itália só havia vencido um jogo, enquanto o Brasil era o único com aproveitamento de 100%. O problema é que nós sempre buscávamos o gol e isto tornou-se fatal. O que vimos no final do jogo foi aquela frase que ficou na triste memória de todos nós: "A tragédia de Sarriá". A Itália despachava o Brasil por 3 a 2, com um show de gols do atacante Paolo Rossi. No término da partida, lembro-me que minha tia ligara para mim na tentativa de me consolar. Chorava muito, aliás, naquele dia toda a Nação brasileira estava entristecida.
Foi um certame pacífico. Brasil e França jogaram o futebol mais bonito, mas não fizeram a final. A seleção 'canarinho' foi muito elogiada. Seu futebol era alegre, vistoso, criativo, goleador, porém isso não foi suficiente para nos levar à final.
Brasil 4 x 1 Nova Zelândia: um show de nossa seleção
Fica aqui um pequeno registro que presenciei daquele Mundial de Futebol que considero o 'melhor da história'. Talvez ainda tenhamos outros belíssimos mundiais, mas aquela Copa de 1982, da Espanha, certamente ficará 'para sempre' registrada na minha lembrança. Só nos resta a dizer: Saudades...

Seleção do Mundial de 1982
Eis os melhores, na Espanha: Zoff (Itália), Amoros (França), Oscar (Brasil), Scirea (Itália) e Briegel (Alemanha), Falcão (Brasil), Boniek (Polônia) e Platini (França), Zico (Brasil), Rossi (Itália) e Rummenigge (Alemanha)

Uniforme da Seleção Italiana
Azul, cor ausente na bandeira do país
Os alemães chegaram cansados à final, depois de um dramático jogo com a França e uma derrota inexplicável para a Argélia, na primeira fase. Quem os cansou? Os franceses, claro, como eles, alemães, cansaram os italianos em 1970, antes da final contra o Brasil. Na final (foto acima, com Gentille e Tardelli, autor de um dos gols da Itália na decisão), Itália e Alemanha viu-se o duro futebol europeu, porém não se pode contestar que os italianos mereceram a vitória! (3 a 1).
Zoff, o melhor goleiro do Mundial. Muito elogiado também foi Dasayev, goleiro da ex-URSS
Conti: talentoso ponta italiano
Foto da finalíssima contra a Alemanha Ocidental, em 1982
A "Squadra Azzurra", em sua foto oficial para a Copa de 1982
O nosso carrasco Rossi. Ao fundo, o árbitro brasileiro da final, Arnaldo César Coelho
Capa do 'El Gráfico'

Escudos da seleção Italiana ao longo da história
Itália e Brasil: quem não se lembra da narração do saudoso Luciano do Valle. Muitas saudades deste jogo...
O elenco de 1982, by Panini 

Homenagem aos Savóias
A cor da camisa da famosa 'Squadra Azzurra' (Esquadra Azul) é uma homenagem aos Savóias, família real que protagonizou a unificação da Itália no século XIX. O azul, cor oficial da realeza italiana, passou a tingir o uniforme da seleção de futebol em 1911, quando o país ainda era uma monarquia. Na instauração da República, em 1946, a única alteração foi a troca do escudo real - vermelho com uma cruz branca, representando o brasão da família - por outro com os tons da bandeira: verde, branco e vermelho. Mas o azul não foi a única cor do time italiano. Nas duas primeiras partidas oficiais da seleção, o uniforme era branco, simplesmente pelo fato de o tecido ser mais barato. Em 1937, a equipe adotou um modelo todo preto, cor-símbolo do governo fascista do primeiro-ministro Benito Mussolini. A experiência teve vida curta e o azul voltou depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945. A opção por essa cor influenciou times da colônia italiana espalhados pelo mundo.
Pesquisa histórica do artigo: "Todas as Copas do Mundo", dica de livro, do mestre e colega jornalista Orlando Duarte

Um comentário:

  1. Concordo! Narração espetacular do Luciano do Vale, chorei muito depois de Brasil x Italia em 1982, eu tinha 12 anos.

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